Nunca antes na história dos videogames a nostalgia foi tão usada como recurso para motivar vendas: reutilização de personagens clássicos, referências a era 16 bits, jogabilidade retrô…Estaríamos diante de uma febre de homenagens ou de truques pra disfarçar produtos fracos e a falta de criatividade?

Sinceramente nunca compreendi o fascínio que os jogos antigos despertam nas pessoas a ponto de quererem reviver essas experiências em consoles atuais. Antes que atirem pedras, deixem eu me explicar melhor.

Comecei a jogar aos 8 anos no Master System, passei por toda as principais gerações, se não foi jogando, foi acompanhando tudo em revistas e nos famigerados fórums, então entendo perfeitamente todo o valor que os personagens clássicos tem, bem como a importância de cada período. O que não entendo é como alguém prefere gráficos de Mega Drive e Super Nintendo aos atuais, como tem gente que idolatra Mario Bros. e ignora Mario Galaxy, da mesma forma que não entendo pessoas que inferiorizam os jogos atuais sob o argumento de que “antigamente é que era bom” e se fecham num mundinho com suas camisetas Atari e tatuagens de Space Invanders. Acredite ou não tem muita gente com esses pensamentos por ai.

O exagero às vezes chega ao ponto de comparar as músicas orquestradas, bem produzidas e altamente complexas com os chiptunes oferecidos pelos videogames de 20 anos atrás, a justificativa é que “antigamente a trilha sonora era melhor porque era mais simples” ou “a música do Mario é antológica e imbatível porque todo mundo lembra”.

Não discuto a qualidade das trilhas de alguns jogos antigos, mas acredito também que muita música de jogo foi elevada ao patamar de clássico mais por osmose  (devido ao alto grau de repetição de uma infância com poucos jogos e nenhum cartão de memória)  do que por qualidade, o que gera um bando de pessoas aplaudindo versões remixadas ou reinterpretadas como na Video Games Live, quando na verdade estão aplaudindo suas próprias memórias e não a música em si.

Nostalgia (francês nostalgie) - s. f.
1. sensação de saudades de um tempo vivido, frequentemente idealizado e irreal.
2. estado melancólico causado pela falta de algo.

Ao meu ver, lembrar com carinho de uma época, na maioria das vezes, associada a infância do jogador não é um problema, da mesma forma que não vejo nada de errado em baixar emuladores e correr atrás daquele cartucho (Rom!) que era impossível de achar quando  criança, o que me incomoda é o exagero de um grupo de pessoas de preterir o novo em função do antigo, classificando tudo o que é recente como inferior, sempre com argumentos infundados e absurdos. Vamos a um teste rápido para deixar ainda mais claro o meu ponto de vista e ver se você, caro leitor, faz parte desse grupo do qual estou falando.

Leia as afirmações abaixo e ao final responda de coração aberto:

  1. Tirando o valor sentimental, Final Fantasy VII ainda é um ótimo jogo, tanto em gráficos, jogabilidade e narrativa.
  2.  Street Fighter II ainda é o melhor da franquia por causa de seus combos bem estruturados e do controle fácil de aprender
  3. O Super Nintendo é o melhor videogame de todos os tempos porque a maioria dos jogos era incrível e muitos são imbatíveis até hoje.
  4. Os jogos de Atari ainda são muito bons porque naquela época usávamos a imaginação para compreender o jogo, hoje em dia é tudo muito fácil.

Concordou com três ou mais afirmações? Se sim, você faz parte daquele grupo!

PAGUE PARA LEMBRAR

A síndrome da saudade descabida não é algo exclusivo dos videogames, muito pelo contrário. Encontramos pessoas que sentem saudades dos anos 80, mesmo tendo nascido no começo dos 90, pessoas que preferem o rock dos anos 70 porque de lá pra cá nada de bom mais foi criado ou aqueles que dizem que o cinema em preto e branco nunca foi nem será superado, aconteça o que acontecer!

Não me lembro de nada parecido na geração passada (ps2, gamecube e xbox), acredito que naquela época o importante era a competição gráfica e a promoção de novas franquias. Sinceramente não me vem a memória nenhum jogo grande daquela geração que se apoiasse no estilo retrô.

A indústria dos videogames, é claro, não deixaria esse fenômeno passar sem lucrar em cima ou alguém achou que era coincidência os vários jogos com temática clássica sendo lançados?

Relançamento de jogos de arcade na psn e live, jogos de portáteis antigos saindo para a loja virtual da Nintendo, conversões de antigos gêneros saindo no PC, sem contar os jogos novos que utilizam a mesma mecânica de jogos antigos, seja um jogo estilo beat ‘up 16 bits para promover um livro/quadrinho (Scott Pilgrim), seja a sequência de uma série com mais de 20 anos saindo nos moldes dos primeiros jogos ou os inúmeros jogos de plataforma que se apoiam no fato de serem indies para entregar algo no quesito “igual, mas diferente”, apelando para o valor nostálgico sem entregar nada realmente novo ou criativo. 

 

Um desses Megaman foi lançado em 1987 e o outro em 2010. Adivinhe qual é qual?

LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ

Felizmente muitos jogos tem se aproveitado dessa moda de volta as origens para entregar algo novo. Mortal Kombat 9 é um dos melhores exemplos, vendo que a série estava naufragando bonito, os produtos decidiram recomeçar tudo, usaram para uma ambientação clássica, mas sem esquecer os personagens novos criados durante todo esse tempo, reutilizando velhas ideias e acrescentando novos conceitos. Um jeito de fazer isso do modo errado seria filmando atores e criando sprites bem do jeito anos 90 e lançando um jogo novo baseando totalmente na mecânica antiga (tal como Megaman 10 fez).

Rayman Origins lançado no final de 2011 também apostou no retorno à fórmula original, entretanto abusou da beleza gráfica, com cenários cheios de detalhes e provou que um jogo em plataforma 2D pode ser criativo e cativante sem cheirar a naftalina.

Outra série que ia mal das pernas e encontrou sua redenção ao visitar o passado e aprimorar o que tinha foi o Sonic. Deixando de lado as confusas histórias e tirando o foco de personagens irritantes, o jogo Sonic Generations (2011) mesclou o velho estilo plataforma em 2D com gráficos atualizados e oportunidades de jogar com uma versão aprimorada do Sonic em 3D. O jogo foi bastante elogiado e mostrou que o caminho certo não é abandonar completamente o passado, nem se apoiar de maneira apelativa nele. No final das contas, a conclusão que fica é que o segredo para um bom jogo, independente da época, é oferecer experiências novas, divertidas, capazes de propor desafios originais com aquela sensação de familiaridade da qual todos sempre gostam.