Virou chavão reclamar do vários relançamentos de jogos da CAPCOM e de sua postura mercenária, mas aonde está o real problema  por trás de tantas edições especiais?

Só pra começar devemos lembrar que a prática de relançar jogos em versões especiais, cheias de novidades, com conteúdo extra e tudo mais que tem direito, não é recente. Os relançamentos sempre ocorreram e se dividem basicamente em dois tipos:

1º Relançamento de jogos antigos para outras plataformas, na maioria das vezes plataformas mais potentes, com melhorias gráficas, sonoras e adição de conteúdo extra.

2º Relançamento de jogos recentes para a mesma plataforma, com conteúdo extra e correções em relação a versão original. Normalmente lançado pouco tempo após a versão original

A frustração e raiva de muitos jogadores vêm justamente do abuso do segundo tipo. Jogos estão sendo modificados e relançados muitas vezes em poucos anos (às vezes meses), gerando desconfiança do jogador na hora de decidir qual jogo comprar. E é justamente nesse contexto que a Capcom tem se destacado.

Como dito no início, a prática não é recente, um dos exemplos mais memoráveis é Street Fighter II, lançado em 1991 para arcade. O jogo de luta dispensa apresentações, mas o número de reedições é admirável. Confira no replay:

Street Fighter II: World Warrior (1991) > Champion Edition (1992) > Turbo: Hyper Fighting (1992) > The New Challengers (1993) > Turbo (1994) > Turbo Revival (2001) > The Anniversary Edition (2003) > Turbo: HD Remix (2008)

O mais famoso jogo de luta da Capcom teve até hoje OITO versões oficiais, sem contar conversões diretas para quase uma dezena de consoles desde então. É uma média de um nova edição a cada dois anos nos últimos 20 anos!

O discurso sempre foi o mesmo: melhorias, aprimoramento e refinamento do jogo. No início todo mundo sempre aceitou e continuou comprando versão após versão. Por que será então que de uma hora pra outra isso virou um problema?

PAGUE UM, LEVE MEIO

A vinte anos atrás os videogames ainda eram uma plataforma nova, que aos poucos  se popularizava,  a visão crítica dos jogadores não era tão exigente e a oferta e acesso a bons jogos não era tão simples como hoje em dia, em que basta uma conexão rápida e em alguns minutos você possui acesso ao jogo que quiser, sem sair de casa nem pagar um centavo. Os tempos eram outros, então era muito mais fácil aceitar uma nova versão de um jogo que você sabia que era bom, do que arriscar em alugar ou comprar algo desconhecido.

Durante a geração Playstation, as versões especiais permaneceram existindo, mas o principal meio de lucro fácil com uma franquia passou a ser a produzindo de spin-offs ou sequências preguiçosas, a série Megaman que o diga, mas foi um pouco depois dessa época que a indústria de games começou a perceber que mais simples que produzir uma sequência de um jogo de sucesso, era relançar o mesmo jogo com alguma coisa a mais e pronto!

Se nos primeiros vinte anos, Street Fighter II teve 8 versões, quantas teriam Street Fighter IV, lançado em 2008?

Street Fighter IV: Vanilla (2008) > Super (2010) > Arcade Edition (2011) > 3D Edition (2011) > Volt: Battle Protocol  (2011)

Em 4 anos,  5 versões. Em média, quase 1 jogo por ano, ou seja, o tempo passou e pouca coisa mudou, seja reaproveitando a ideia em outras plataformas (como o 3D Edition para 3DS e Volt para iOS) ou só incrementando algo já lançado, é evidente que a maneira fácil de lucrar permanece praticamente a mesma.

Para não ficar só em Street Fighter, podemos pegar outros exemplos, não tão exagerados, mas igualmente canalhas.

Devil May Cry 3 (2005) > Special Edition (2006)

Resident Evil 5 (2009) > Gold Edition (2010)

Marvel vs Capcom 3 (Fev. 2011) > Ultimate Edition (Nov. 2011)

O tempo passou, a visão dos jogadores e suas exigências se sofisticaram, o acesso a informação está mais fácil do que nunca, entretanto as práticas de lucro fácil pouco caminharam.

Sinceramente, não vejo problema em vender conteúdo adicional embutido no disco do jogo por exemplo, desde que esse conteúdo seja, no sentido pleno da palavra, um conteúdo EXTRA, não fragmentos do jogo original. A frustração máxima é perceber que um jogo não foi entregue por completo, com a intenção de lucrar em suas partes já prontas no futuro.

ALTA DEFINIÇÃO

A evolução dos sistemas também foi usada sem dó como pretexto de “novas versões”.  Com o aumento de definição de imagem e popularização de televisores com telas cada vez maiores, o recurso de relançar um jogo antigo em sua “versão HD” tomou força.

Pode ser um jogo do Playstation 1, de Nintendo 64, do Dreamcast, do Xbox ou do Playstation 2, tanto faz, todo e qualquer jogo que provou um pouco do sucesso em gerações passadas está na mira de ser refeito em HD. Nessa maneira ainda mais preguiçosa, nem é preciso se dar ao trabalho de desenvolver conteúdo extra, basta aplicar diversos filtros, refinar os gráficos aqui e ali e pronto! Mais dinheiro, mesmo jogo.

A CULPA É MINHA?

Muitos ficaram em dúvida se comprariam o recente Street Fighter vs Tekken ou aguardariam a versão futura, melhorada e recheada de extras, outros tantos ignoram tudo isso e compram quantas vezes for necessário o que lhes é empurrado goela abaixo.

No final das contas, o que muitos jogadores acabam esquecendo é que a meta da Capcom, assim como qualquer outra empresa, seja de videogames ou não, é gerar lucro. Dizer que empresa A ou B é mercenária é partir da lógica romântica de que elas querem só a diversão do jogador, o desenvolvimento da arte, a felicidade de todos e só por fim, algum dinheirinho em troca. Não é bem assim.

Se um determinado público comprou a ideia do Steam, a tendência é que o serviço mantenha seu comportamento de preços baixos, sistema amigável e rede com facilidades e promoções constantes, por outro lado se as pessoas reclamam, mas no final das contas sempre acabam comprando as edições extras da Capcom, é óbvio que elas continuarão saindo e que a empresa não hesitará em executar práticas consideradas (o chavão da vez) “caça-niquéis”, até o dia que elas pararem de dar dinheiro. Quer você ache justo ou não, são só negócios! ;)