A fusão dos melhores elementos de games consagrados da geração, essa é uma boa forma de se começar a descrever o reboot da franquia Tomb Raider. Quando foi anunciado, já há alguns anos, acredito que praticamente todos ficaram bem interessados na nova abordagem do game, deixando de lado uma Lara overpower para focar em uma personagem mais humana, frágil, que precisa sobrevier em um ambiente extremamente hostil, à medida que evolui não só em técnicas, mas como pessoa. A ideia seria fazer um prequel da franquia, mostrando como a jovem Lara, inexperiente como arqueóloga e aventureira, ia iniciar sua transformação na versão feminina de Indiana Jones, ou até mais do que isso eu diria.

No jogo Lara está com 21 anos, praticamente recém-formada da faculdade e faz parte de uma equipe de exploração que busca resquícios de uma civilização antiga, de origem japonesa, localizada em uma região do mar do Japão, no Triângulo do Dragão, conhecido também como Mar do Diabo, a aproximadamente 100Km ao sul de Tóquio. Ao enfrentarem uma forte tempestade o navio onde a equipe se encontrava naufraga. Lara, separada do restante dos tripulantes, acorda presa em uma caverna, localizada em uma ilha remota. Seu objetivo inicial é escapar desta caverna e se reunião com seus amigos, que estão em algum lugar da ilha. Esse é o objetivo inicial do game, das primeiras 2 horas eu diria, mas a trama se desenvolve bastante, sendo digna de uma versão para maiores 18 anos do filme Indiana Jones e o Templo da Perdição.

A Crystal Dynamics está de parabéns, o resultado final foi fantástico. Tecnicamente o jogo é impecável, gráficos muito bonitos, ambientes diversificados, texturas de alto nível e efeitos muito bem aplicados. É um jogo que mostra que estamos no final da geração atual e que os consoles estão praticamente no limite de capacidade tamanha a qualidade visual. As cavernas são um bom exemplo, a luz das tochas refletidas nas rochas gerando sombras dinâmicas em todos os elementos do cenário, até mesmo do rato randômico que passa, mostra o nível de detalhe e qualidade do game. A modelagem dos personagens está muito boa, principalmente da Lara. É passado visualmente, mas não só visualmente claro, a evolução da personagem, da inocente arqueóloga para a sobrevivente mother fucker. Mais do que a evolução, você vê como a personagem vai se desgastando fisicamente, cada machucado e cicatriz que ela adquire ao longo do jogo e que te acompanha pela jornada, além é claro dos curativos rudimentares que ela faz com os recursos que tem. A movimentação da personagem está bem natural, o trabalho de captura de movimento foi muito bem feito e chega a ser superior um pouco ao de Uncharted quanto à naturalidade da movimentação. A forma como Lara anda, corre, como ela se pendura nas estruturas, como escala e como interage com os objetos do cenário, tudo é muito natural. Logicamente, como ela se machuca com frequência durante o game, a movimentação se adequa para tal.

Os cenários do game como citei são bem variados. Existem vários ambientes e instalações diferentes na ilha, indo desde florestas mais fechadas, até praias, cavernas e montanhas, tudo muito bem detalhado. Alguns lugares são extremamente sinistros, possuindo uma ambientação digna de um survival horror. Existem cenários bem amplos e o draw distance é muito competente, em nenhum momento notei popup de textura ou outros problemas. Elementos climáticos estão presentes no game, e apesar de não serem dinâmicos, são muito bem feitos. Chuva, neve, ventanias fortes, temos de tudo para dar um clima bacana no game.

Mas o jogo não é só bonito, outro elemento que contribuiu bastante no game é a parte sonora. A trilha é muito boa, bem adequada para cada situação e ambiente. Cavernas tem uma trilha sombria e tensa, florestas praticamente não tem música. Em momentos de ação extrema, como fuga de estruturas em demolição, a música acompanha para deixar o jogador mais tenso ainda. A dublagem é espetacular, não só da Lara, mas de todos os personagens eu diria. A dubladora da Lara, Camilla Luddington, fez um grande trabalho, o voice acting dela juntamente com o visual da Lara faz com que você se importe com a personagem praticamente de maneira instantânea, independente do fato de você controlar ela.

Muito foi discutido sobre a jogabilidade do game quando os primeiros vídeos de gameplay foram divulgados. A grande maioria das pessoas dizia que o jogo era, na verdade, um clone de Uncharted, que Lara, antes inspiração para o Drake, agora estava seguindo os passos do seu sucessor nesta geração. Tomb Raider, na realizada, é muito mais do que um clone de Uncharted, é uma coletânea de elementos de jogabilidade bem implementados de alguns jogos de sucesso, adaptados ao contexto do jogo. O game tem a movimentação de Uncharted, o backtracking evolutivo de Batman Arkham City e em alguns casos de Metroid, o Detective Mode, mais uma vez, de Batman AC, só que simplificado, a caça e o sistema de skills de Far Cry 3 e por fim a tensão e o gore de Silent Hill.

Indo por partes, a movimentação da Lara é muito fluida, ela se move de maneira bem natural, reage a objetos próximos a ela, coloca a mão para não esbarrar em paredes, bem semelhante realmente a Uncharted. Toda a parte de parkour do jogo é muito prática e eficiente. Por mais complexo que possa parecer se pendurar em estruturas, escalar montanhas e deslizar por cordas, tudo é feito de maneira simples com no máximo 1 QTE. Momentos de ação extrema, como deslizar por uma “rampa” em uma caverna escorregadia, são rápidos, mas sempre que exigem uma ação mais critica do jogador, como pular para uma parede ou atirar em algo, o jogo entra automaticamente em bullet time, facilitando o processo. Até mesmo o pulo entre as plataformas é ajustado automaticamente durante o trajeto, mais ainda do que em Uncharted. Você irá morrer em um pulo somente se pular diretamente para um lugar errado, caso contrário, por mais torto que o pulo tenha se iniciado, a Lara irá agarrar na extremidade e se segurar.

Outra parte da movimentação semelhante à Uncharted é o combate. O tiro é bem semelhante, não somente os controles, mas a flexibilidade e agilidade da personagem durante o tiroteio. O cover é automático, não necessita apertar um botão, e ao contrário de Drake, a Lara se agacha atrás do cover e não cola nele, permitindo assim que você sai com maior facilidade. Apesar do game ter poucas armas, todas podem sofrer upgrade, melhorando os atributos das mesmas, como dano, precisão, inclusão de scope, além de um segundo tiro e munições diferentes. Por mais que todas as armas sejam extremamente eficientes, o arco é flecha é o mais divertido de todos, e isso ocorre porque ele é eficiente. Mesmo com a versão mais rustica do arco é muito fácil mirar nos inimigos, tanto que devo ter matado 90% deles usando apenas o arco e flecha. Para fazer upgrade das armas você precisa de “pontos de salvage”, que são na verdade matérias primas para se fazer os upgrades. Tecnicamente falando, o salvage é um número, pontos que você acumula fazendo loot nos inimigos e quebrando caixas durante o game, e cada upgrade custa uma quantidade X de salvage, simples assim. Mais na frente do game você precisa encontrar X quantidades de partes de uma arma para liberara mais possíveis upgrades para a mesma.

Além das armas, Lara também pode aprender skills, bem semelhantes às de Far Cry 3, que se dividem em skills de sobrevivência, de combate melee e combate com armas de fogo. À medida que você avança no game, encontra coletáveis e faz sidequests, a personagem ganha XP. Conseguindo uma quantidade X de XP, você ganha 1 ponto de skill, que pode ser gasto adquirindo uma habilidade. As habilidades são variadas e bem úteis, podendo aumentar a quantidade de loot adquirido, aumentar o dano das armas e dar novos golpes.

A exploração neste game é muito satisfatória e isso se dá em sua maioria pelo level design do jogo. Tudo é muito bem montado, você dificilmente ficará perdido. A possibilidade de escalar e se pendurar em várias partes do cenário permitem diversas formas de vasculhar o mesmo atrás de colecionáveis, que são muitos inclusive. A ilha é dividida em setores e em cada setor existem diários, relíquias e mapas, para se procurar e quests específicas para fazer. Essas quests são bem distintas, variando entre queimar pôsteres, escavar túmulos, destruir pequenos monumentos, dentre muitas outras coisas. Existem ainda tumbas que ficam muito bem escondidas nos setores e que armazenam alguns loots mais valiosos, além de uma quantidade grande de XP. Para conseguir avançar na tumba você precisa resolver puzzles, bem semelhantes ao que temos em Uncharted. Se já não bastasse o level design ser muito bem estruturado, você conta ainda com o Survival Instinct, que é um modo de visão diferenciado que destaca os itens importantes do cenário. Basicamente é uma versão simplificada do Detective Mode do Batman, o cenário fica preto e branco, uma onda de luz dourada expande pela tela e todos os elementos do cenário com os quais a Lara pode interagir são destacados em amarelo. Isso vale para tudo, parte do cenário que podem ser escaladas, caixas que podem ser quebradas, inimigos, etc. Outro elemento de jogabilidade existente também em Batman que está presente em Tomb Raider é o que chamei de backtracking evolutivo. À medida que você avança no game você ganha novos equipamentos que permitem a Lara ter acesso a partes da ilha antes não alcançáveis. Como no game temos a opções de fast travel entre alguns pontos, isso permite que você volte a setores iniciais da ilha e acesse agora um local que antes não tinha acesso, e, certamente, neste lugar existe um colecionável para ser pego.

Por fim no jogo você pode caçar pequenos animais. A variedade não é grande, então associar com Far Cry 3 talvez seja um pouco de exagero, mas você, ao matar um animal, ganha loot, salvage para ser mais exato, e XP, o que já vale o esforço.

Para não dizer que temos problemas no jogo, o multiplayer é bem fraco. Mesmo com a movimentação fluida dos personagens, pela ausência de algumas skills presentes no single player, a jogabilidade é prejudicada e o multiplayer acaba se tornando chato. Esse é mais um jogo onde o foco e o mais importante é a campanha single e que o multiplayer foi inserido somente como padrão de mercado, assim como foi com Dead Space 2, Far Cry 3, dentre muitos outros. Por sorte, o multiplayer não afeta em nada a campanha single, que é ótima.

Concluindo, Tomb Raider é um jogo que foi gerador de hype por um bom tempo e, para a felicidade de todos, o hype foi correspondido. A campanha teve uma duração muito boa, em média 10 horas, com uma conclusão de 78% do game no meu caso. O jogo não possui newgame+, mas depois de finalizado você pode continuar jogando e pode pegar os itens que faltam e realizar as sidequests restantes. Extremante satisfatório, Tomb Raider é uma coletânea de excelentes elementos de jogabilidade, combinados e adaptados de maneira perfeita, acrescido ainda de ótimos gráficos, música imersiva e dublagem super competente, certamente, é um dos melhores jogos de 2013.

Também disponível em PS3 e PC